quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Café Orquídea II

Se os dias eram chuvosos e frios, as noites eram de tempestades. Ventos ciclónicos que faziam de tudo para entrar pelas janelas dos quartos, a chuva que incansavelmente tentava invadir as habitações e os relâmpagos que tiravam o sono as crianças deixando as a chorar, pedinchando alguns para ir para a cama dos seus pais para se sentirem mais seguros, medo de que no seu pequeno quarto a tempestade pudesse entrar. Era um bocado igual em todas as casas nessa noite, excepto numa. Já ao pé daquela majestosa montanha, havia uma pequena habitação onde reinava a calma e o sossego, uma casa que parecia que não tremia com a tempestade, onde o vento não parecia que tivesse necessidade de entrar, uma casa onde quem habita esta em paz. Uma eterna viajante, que seguia um caminho simples entre estrelas e planetas distantes, no entanto com os pés bem assentes num bocado de areia. Dessa maneira deixou-se a olhar para o horizonte, um horizonte vazio, onde a cada momento que se passasse surgia mais areia e mais areia até se formarem duas pirâmides de areia no fundo do horizonte.
                Sem se mexer, ficou a olhar atentamente para o horizonte e num mero segundo, fechou os olhos e respirou bem fundo, enchendo bem os seus pulmões. Enquanto deixava sair o ar pesado que tinha acabado de respirar abriu os olhos. A sua visão deixou-a atrofiada e insegura pois assim que abriu os olhos encontrou a sua frente dois cavalos. Notava se perfeitamente que seriam irmãos no entanto havia algo curioso. O cavalo do lado esquerdo era negro, completamente preto, o seu pêlo era brilhante e linear, conseguia-se ver bem a brisa desértica a passar por ele. Majestoso e forte com um brilho inconfundível no seu olhar, parecia o reflexo do universo que estava sobre as suas cabeças. Ao lado deste, estava o seu irmão, no entanto este outro cavalo ardia em chamas. Era uma criatura intimidante e nervosa, não parava de bater com os cascos na areia deixando uma pequena área de areia queimada, uma sombra de cinzas. Era majestoso também mas assustava pelo facto de estar completamente consumido em chamas e continuar ali vivo. Sem dar um passo em frente e completamente ofuscada pelos cavalos, ficou ali admira-los mais um bocado, até que as duas criaturas se moveram e se afastaram um pouco uma da outra e de repente surge perto de cada um dos cavalos um cubo. Dois cubos estavam agora a frente dela, mas eram muito diferentes. O cubo que estava ao lado do cavalo negro e belo era relativamente pequeno, pouco maior que ela e estava ali a flutuar. Sólido mas leve, feito talvez de carvão. Ao lado do outro, perto do cavalo em chamas, estava um cubo enorme, em comparação com o outro cubo. Este era transparente, obviamente vidro e também a flutuar, este flutuava em seu próprio eixo. A visão era estranha mas harmoniosa e ela sentia-se cada vez mais insegura a tudo o que a rodeava, sabia que era bonito mas sentia que algo de mau estaria próximo. Nisto e sem avisar de onde, surge no meio desta linda tela, uma escada. Um simples escada de madeira mas havia algo estranho nela: ela surgia de um buraco no deserto e seguia em direcção as constelações. Ela chegou-se para perto da escada, sentindo-se observada pelas duas criaturas e olhou para o buraco. Não conseguia ver onde a escada estaria pousada e em ansiedade olhou para as estrelas. Entrou num súbito pânico e apercebeu-se que também não conseguia ver até onde chegava a escada. Olhou em seu redor e de repente, entre as duas pirâmides, surgiu uma tempestade de areia, que de uma maneira surreal aproximava-se cada vez mais depressa dela. Em pânico ela olhou a sua volta e para seu espanto nada se tinha movido: os cavalos continuavam no mesmo sítio a olhar para ela fixamente. Os cubos continuavam a flutuar calmamente e a escada não tremia de maneira nenhuma. A tempestade cada vez mais se aproximava e ela tentou gritar em desespero mas nenhum som saiu, nada, apenas o barulho da tempestade de areia cada vez mais próxima se ouvia e foi então que em lágrimas, se ajoelhou e a tempestade a engoliu. Um relâmpago tremeu com a casa toda e do meio da escuridão daquele quarto, em sobressalto, alguém se senta e completamente suada fica a olhar em pânico para a janela. Com o batimento cardíaco louco de um atleta e com a respiração completamente ofegante ela diz:
                - Outra vez este pesadelo?! – Enquanto o diz tenta manter a sua respiração calma e põem-se a pé da cama e vai em direcção ao quarto de banho. Abriu uma pequena gaveta e tirou de lá um pequeno recipiente com uma medicação e tomou dois comprimidos sem hesitar, bebeu um copo de água de um só trago e voltou-se a deitar. Respirou fundo e foi uma questão de segundos a acalmar e sem que ela se desse conta, naquele momento, como por magia, um manto celestial pousou sobre os seus ombros, ela sentiu-o e sorrindo tentou abraça-lo mesmo sabendo que nada físico estaria ali, no entanto ela fechando os olhos disse:
                - Eu sabia que ainda me vinhas abraçar antes de eu me deitar, meu anjo da guarda. – e assim adormeceu.
                Seriam pelo menos nove da manhã quando ela saiu de casa e a tempestade já não era tempestade, no entanto, a chuva continuava a cair. Entrou no seu carro e foi até a cidade. Estacionou o carro e abriu o seu guarda-chuva vermelho, e dirigiu-se a florista, a dona Luísa. Ela ia distraída no pensamento sobre o pesadelo da noite anterior e o que poderia significar tudo aquilo que nem se apercebeu que já estava debaixo do pequeno quiosque quando fechou o guarda-chuva. Ao lado dela estava um jovem que ela rapidamente olhou de cima a baixo, o pobre coitado estava todo molhado e estava a ver o estado dos seus cadernos na bolsa. Virando-se então para a dona Luísa cumprimentou-a com um sorriso e disse:
- Bom dia dona Luísa, mas que tempo para vender flores.
- Bom dia menina, não me diga nada, ninguém quer andar com flores e com o guarda-chuva na mão. E então o que vai desejar hoje menina?
E então ela começou a olhar a sua volta a olhou para o jovem que ficou completamente hipnotizado a olhar para ela. Ela não conseguiu segurar o sorriso e corou um pouco e sem saber exactamente porque voltou a olhar para a dona Luísa dizendo:
 - O costume, mas hoje, sinto que têm de ser brancas dona. – e suspirando enquanto ainda se lembrava da cara do jovem foi a mala tirar a carteira para pagar.
- Umas orquídeas brancas então. Você realmente adora estas flores, dê-me só uns cinco minutos para preparar o ramo.
                - Não é necessário dona, acredite, não me posso demorar. – e dizendo isto entregou o dinheiro a florista e sem que tivessem passado os cinco minutos, já o ramo estava pronto. Deu-se a troca entre as duas senhoras e o troco estava confirmado e já na carteira.
                - Obrigado dona Luísa, até amanhã então.
                - Até amanhã menina e não se esqueça do guarda-chuva.
- Não me esquecia dele num dia destes. – e então pegou no guarda-chuva e sem mais demoras, sem sequer olhar para trás, saiu do quiosque e seguiu pela pequena ruela que havia em frente. O movimento na rua ainda era algum, mas em menos de cinco minutos chegou ao Orquídea, café que ela própria explorava e deixando as orquídeas num pequeno jarro no balcão, foi ao vestuário mudar de roupa, nisto ouviu alguém a chegar e pensou “Já?! Bem, é melhor começar já a trabalhar e assim também me distraio do pesadelo. No entanto aquele jovem até me meteu pena” e enquanto pensava nisto dirigiu-se a mesa e ficou estática antes de falar, quem acabara de chegar era o jovem que estava na florista ainda agora. Sorrindo chegou-se mais perto da mesa e com toda a coragem do mundo disse:
- Bem-vindo ao Orquídea, estou a ver que a dona Luísa lhe disse onde eu trabalhava. - em cima da mesa estava uma orquídea branca igualzinha as que ela tinha comprado. O rapaz lentamente virou-se para ela e a visão era no mínimo engraçada: O pobre rapaz estava encharcado dos pés até a cabeça e o cabelo ainda pingava para a mesa restos da chuva. Imediatamente ela diz:
-Talvez uma toalha e um café para começar. Eu volto já. – e virou-se em direcção ao balcão enquanto pensava “Ele trouxe a orquídea? Será isto um sinal?” e do nada ouviu a voz do rapaz dizendo:
- Desculpe, mas como é que se chama? – Seria possível ele ter perguntado isso? Não era possível, no entanto sorrindo cada vez mais e corada ela voltou-se para ele e com os olhos fechados respondeu:

- Sou Catarina, Catarina Vanessa mas podes tratar-me por Katness se assim o desejares.

sábado, 6 de setembro de 2014

Café Orquídea I

Era somente mais um dia chuvoso, típico naquela altura do ano, ainda o Inverno mal tinha começado e já toda a gente se queixava do mau tempo. Pelas ruas daquela cidade romana, muitos guarda-chuvas se cruzavam, seriam poucos os que não estivessem também a usar sobretudos e cascóis para proteger do frio. Conseguia-se ouvir uns miúdos a brincar numa poça de água e ao mesmo tempo ouvia-se as respectivas progenitoras a dizer para sair da chuva. Tal era o meu plano também. Que eu tivesse percebido, eu era o único que não tinha saído com guarda-chuva de manhã, manias de quem está naquela idade em que nunca ficamos doentes, ou pelo menos pensamos que assim o é. O meu padrasto bem tinha aconselhado, mas o quero lá saber dos conselhos dele para alguma coisa, enfim, no entanto cá estou eu a tentar encontrar um sítio para me abrigar um pouco, embora já esteja completamente encharcado. Abriguei-me debaixo de um tolde de uma florista, simpática a mulher, mas nunca falei muito com ela, simplesmente um sorriso e uma leve vénia como quem diz “vou me só abrigar aqui um pouco e já me vou embora” e ela assim concordou sem dizer uma palavra. Ficou então um silêncio estranho, enquanto só ouvia a chuva a cair e apreciava as pessoas a passar. Olhei ao meu lado e reparei na minha bolsa, bolas, tinha me completamente esquecido que trazia a minha bolsa comigo. Abri a bolsa para ver como estavam os cadernos e nisto apercebo me de um guarda-chuva vermelho a vir em minha direcção. Desviei-me um pouco mas sem fazer algum tipo de som, continuei a verificar o estado dos meus cadernos, é então que a pessoa do guarda-chuva vermelho fechando-o aproxima-se da florista.
                - Bom dia dona Luísa, mas que tempo para vender flores.
                - Bom dia menina, não me diga nada, ninguém quer andar com flores e com o guarda-chuva na mão. E então o que vai desejar hoje menina?
                Por curiosidade olhei para o balcão e a dona Luísa sorria como se tivesse visto o mais belo raio de sol daquele dia chuvoso e em frente dela, uma elegante senhora olhava para todas as flores. O cabelo era curto mas arranjado, trazia um perfume que deixou sem dúvida grande parte das flores com inveja. Sempre com um leve sorriso no rosto, olhava em sua volta e de repente olhou para mim, o seu rosto estava rosado, um rosa que combinava na perfeição com os seus lábios vermelhos. Os olhos eram verdes, não, castanhos com um verde bastante subtil a surgir na íris, hipnotizantes e sem que eu pudesse reagir voltou a olhar para a dona Luísa.
                - O costume, mas hoje, sinto que têm de ser brancas dona. – e com um leve suspiro ela foi a mala dela para tirar a carteira.
                - Umas orquídeas brancas então. Você realmente adora estas flores, dê-me só uns cinco minutos para preparar o ramo.
                - Não é necessário dona, acredite, não me posso demorar. – e dizendo isto entregou o dinheiro a florista e sem que tivessem passado os cinco minutos, já o ramo estava pronto. Deu-se a troca entre as duas senhoras e o troco estava confirmado e já na carteira.
                - Obrigado dona Luísa, até amanhã então.
                - Até amanhã menina e não se esqueça do guarda-chuva.
                - Não me esquecia dele num dia destes. – e então pegou no guarda-chuva. Nesse mesmo segundo, uma das orquídeas caiu e eu instintivamente baixei-me para a apanhar. Não tive voz para falar, senti-me um ser de outro mundo, não conseguia dizer o que quer que fosse e quando me levantei já ela tinha desaparecido no meio da multidão. Fiquei eu ali, a olhar ainda por uns meros segundos a ver se encontrava aquele guarda-chuva vermelho, mas em vão. Nisto sou surpreendido com a voz da dona Luísa:
                - E então rapaz? Perdeu alguma coisa? – dizia isto sorrindo e com os olhos cerrados.
                - Bem, eu não, mas a menina que ainda agora aqui estava deixou cair uma das flores, talvez seja melhor você ficar com ela. – e dizendo isto, estiquei o braço com a flor na direcção da florista mas ela acenou negativamente com a cabeça.
                - Não vou ficar com a flor jovem, guarda-a tu. Aceita, ela já esta paga e já. Talvez te alegre o dia.
                Hesitei por uns segundos, mas dei-me como vencido e guardei a flor junto ao peito. Ela continuou:
                - As orquídeas são flores sensíveis e belas, bem, isso todas as flores o são, mas há algo nas orquídeas que eu não sei explicar, sinto que são mágicas.
                - Mágicas? Bem, sou um pouco descrente quanto a isso, mas tenho de concordar que são umas flores lindas, um belo exemplar sem dúvida. Vou ver se não apanho outra molha até chegar a casa, queria era antes tomar um café e fumar um cigarro descansado.
                - Então segue esta ruazinha jovem, tens um café simpático aqui ao lado. Pode-se fumar lá dentro e tudo, podes ter a certeza que vais gostar. – sem mais demoras ela apontou a direcção enquanto o dizia e quase como um cão bem treinado, lá fui na mesma direcção agradecendo. Só quando já estava na rua no meio da multidão e com a chuva ainda a cair-me pelo rosto abaixo é que pensei “mas porque raio estou eu a ir para onde a velhota me mandou? Eu não estou bem, só pode ser da chuva” e sem ter dado por ela, lá estava eu em frente ao cafézinho. Pareceu-me acolhedor do lado de fora, desconhecia de facto aquele sítio e por curiosidade dei dois passos para trás para ver o nome do café, mas não tinha nenhum letreiro a entrada. Não estava para apanhar mais chuva e então entrei.
                Estava uma temperatura convidativa dentro daquele café, que mais parecia um salão de chá pensando bem. A entrada estava apenas um guarda-chuva e lá dentro não via uma alma viva, estaria fechado pensei eu no entanto a porta estava aberta. Procurei um lugar perto da janela para puder fumar um cigarro e comecei a olhar para a rua que tinha acabado de deixar. Pousei a orquídea na mesa e tentei aquecer um pouco as mãos com o meu bafo. A música era um jazz bastante agradável, eu reconhecia-o mas fiquei na dúvida do nome do artista, no entanto comecei a ouvir o som de uns tacões por cima da música e uma voz familiar cumprimenta-me:
                - Bem-vindo ao Orquídea, estou a ver que a dona Luísa lhe disse onde eu trabalhava.
Sem pensar e com um movimento muito a medo olhei para o rosto de quem me atendia. Aquela olhar hipnotizante e aquele rosto rosado voltavam a estar virados para mim, aqueles lábios vermelhos desenhando um sorriso, um sorriso pelo qual fiquei sem palavras a uns minutos atrás estavam ali, eu nem queria acreditar. Eu devia estar com cara de parvo e todo encharcado pois num subtil momento aquela senhora voltou a dirigir-me a palavra sem que eu ainda não tivesse aberto a boca:
                -Talvez uma toalha e um café para começar. Eu volto já. – dito isto voltou-me as costas e dirigiu-se ao balcão. Do fundo do meu estômago e sem eu saber como, abri a boca e disse:
                - Desculpe, mas como é que se chama? – mas porque raio haveria eu dizer aquilo? Fiquei corado e envergonhado, o que será que ela estaria a pensar de mim agora? Nem um obrigado sequer. É então que ela se voltou a virar e desta vez conseguia ver o seu corpo todo e com as mãos unidas por detrás das costas e com um leve sorriso cerrando os olhos respondeu-me:

                - Sou Catarina, Catarina Vanessa mas podes tratar-me por Katness se assim o desejares. 

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Até Breve

Sobre um olhar tímido da lua e sobre um manto frio do orvalho da noite, lá estava ele, sozinho naquele escuro infernal onde o som das ondas debaixo dele faziam a banda sonora das primeiras lágrimas a escorrer o rosto. Aquela ponte que já muitos tiveram de passar para viajar para outras margens, aquela ponte centenária, onde cada rocha conta uma história diferente, hoje poderiam contar uma outra história.
Era de manhã, quando o sol com todo o seu esplendor, espreitou pelos cortinados do quarto. Aos pés da cama dormia, como era hábito, a roupa suja do dia anterior e o Kalu, aquele gato malhado, dorminhoco mas saudável que fazia da roupa a sua cama. Abriu os seus olhos verdes universo e num bocejo matinal, ao mesmo tempo que se espreguiçava, caminhava lentamente até as almofadas, onde o rosto do dono espreitava. Miando exigia o seu pequeno-almoço e depois de muitas voltas da cama lá o tirou da cama. O pequeno-almoço agora era apenas uma questão de tempo até estar servido. Depois do banho matinal, do primeiro cigarro e do primeiro café, ele saiu de casa como era hábito, mas hoje não iria trabalhar, apenas ia passear um pouco. Uma curta viagem até ao quiosque para comparar um maço de tabaco novo e o jornal com as notícias de ontem, como de costume ao sábado de manhã. Enquanto caminhava, sentiu a sua visão turva e então tirando os óculos e de uma maneira descontraída, como sempre, limpou quase sem jeito nenhum, no seu cascol enquanto continuava a andar. De repente, quase sem saber de onde, um encontrão. Uma pancada seca que o acordo como se de um terramoto se falasse, com o impacto os seus óculos caíram e sem se perceber ainda não tinha pedido desculpa quando instintivamente se baixou para apanhar os óculos. Nisto sentiu, sentiu-o nas mãos, aquilo que ele definiria por um beijo de uma nuvem, o toque suave de uma jovem senhora e com uma voz doce ouviu “peço desculpa, deixe estar que eu apanho os seus óculos”. Petrificado e sem saber como, começou a transpirar de frio e lentamente se erguendo, chorava por dentro por não conseguir ver o rosto de quem lhe limpava os óculos. Sentiu, mais uma vez, uma nuvem tocar lhe nas mãos mas desta vez com os seus preciosos únicos óculos nas mãos “aqui tem, mais uma vez peço desculpa” e sem receio essa mão o largou deixando apenas com alguns segundos de margem de manobra para rapidamente meter os óculos ao sitio para ver quem se afastava, e finalmente, com os óculos sobre o seu nariz olhou mas já era tarde demais. A nuvem tinha dissipado. Encontrava se sozinho, na mesma esquina antes de chegar ao quiosque, onde uns instantes antes sentiu um abalo tão grande que o acordou para a vida. Olhou em sua volta mas como iria ele reconhece-la? Em desespero olhou para o chão e não quis acreditar no que lá aos seus pés estava estendido e abandonado. Uma simples carta, um envelope aberto. Será que terá uma morada? Um nome? Ou talvez um número de telefone, nem que não seja alguma coisa, tem que ter informação preciosa para a encontrar. Bem, o jornal de ontem já não faz falta, há algo novo que tem de ser noticiado e é preciso procurá-lo, pensou ele. Apanhou o envelope e olhou para o seu interior e lá estava uma pequena carta. Retirando-a o seu coração começou a bater mais forte, será que vai dizer algo? Abriu-a e sim tinha algo escrito. Começou a ler aquele pequeno texto e subitamente, entre um sorriso e uma pequena lágrima, voltou a dobrar a carta e guardou-a seguindo um novo caminho, um caminho com um sonho. O seu caminho, levou-o até ao parque da cidade, onde esteve sentado durante horas a olhar para as árvores, a fumar os seus cigarros apreciando os cisnes no lago logo ao lado, belas criaturas. Ao longe ele observava as crianças a brincar no parque infantil e os seus progenitores que punham a conversa em dia, quer sobre o futebol, quer sobre as fraldas que estavam em promoção no mercado do fundo da rua. Seguiu caminhada, desta vez ate ao centro de dia da cidade e lá, foi visitar o seu avô que só tinha hábito de visitar ao domingo, mas hoje, era tudo diferente, era tudo novo a seus olhos. Depois de umas boas cartadas e de umas boas risotas olhou para o relógio e já era quase de noite, essa noite que ameaçava ser fria, e ele ficou inquieto quando deu por ela, acelerou o passou com um sonho nas mãos. Avenida fora, ouviu as músicas da lojas e sem parar foi até a ponte centenária. O seu coração palpitava e não parava quieto e de repente, quando estava a por o primeiro pé na ponte, o seu coração parou por um micro-segundo que parecia eterno. No centro da ponte, por cima daquelas águas calmas, estavam uma jovem, linda como um raio de sol e o vento beijava suavemente o seu cabelo. Aproximou-se, mas sem saber o que fazer, em silêncio, chegou se cada vez mais perto, tirou o envelope do bolso e com calma mas nervoso foi se aproximando cada vez mais. De repente, ela olhou para ele, e ele sentiu o que era ficar de frente com a mitológica Medusa, com os olhos tão penetrantes e belos, onde a íris era verde como a copa de uma árvore na primavera e um leve toque de castanho fazia o desenho de um tronco. Ela olhou para ele e pelo meio do seu cabelo dourado ela olhou discretamente para a mão dele e disse sorrindo “vejo que encontrou a minha carta”, ainda sem saber o que dizer ele apenas esticou a mão com a carta, hipnotizado com o olhar dela. Ela esticou a sua mão e mais uma vez, ele sentiu uma nuvem a pousar lhe nas mãos e sem saber de onde, sem que ninguém o soubesse prever, ela o beijou nos lábios. Planetas alinharam-se na sua mente, céus abriram se num clarão de sonho, e todo tipo de cores surgiu numa visão de universo e galáxias, “que o tempo pare, que o tempo pare” era a única coisa que ele pensava, mas o tempo não pára e aquele simples segundo, terminou. Ela afastou-se dele e disse-lhe “até breve” e virando-lhe as costas, sumiu no meio do nevoeiro que se tinha levantado. Assim ele ficou, sozinho, numa ponte centenária, onde a chuva começava a querer banhar mais o seu rosto que as suas lágrimas, onde o frio climático tomava conta do seu coração, apenas ele e uma carta na mão. O que dizia a carta? A carta dizia:


“Hoje é o meu último dia, deixarei este mundo. Mas antes disso, quero sentir. Sentir a natureza que me viu crescer, as árvores todas do nosso parque, os cisnes que sempre alimentei desde de criança, ouvir as crianças a rir-se lá no fundo quando a mim só me apetece chorar. Quero sentir as rugas daqueles que ficam depois de eu partir, quero sentir as músicas das nossas ruas nos meus ouvidos e sonhar com elas uma última vez. Se deixo algum último desejo? Sim, quero beijar por uma última vez. Quero sentir o amor, a paixão e o desejo por um último segundo, depois quero sumir como uma nuvem. Brevemente.”

domingo, 20 de março de 2011

Conta-me uma história - |V

Após a noite ter chegado ao fim e das últimas horas da manhã estarem a terminar, Afonso, acorda um pouco atordoado no meio do chão da sua sala. Em cima do cobertor quem tem tapando seu corpo nu, estava o seu gato a dormir, sentido o aconchego do dono. Os estores completamente abertos mostram um dia cheio de luz e completamente limpo, no entanto, ele sentia frio e olhou em seu redor e sabia, ela já não estava lá. Não se sentia a presença dela, da mulher que naquela noite o fez viajar por mundos e constelações. Automaticamente, dirigiu-se ao quarto, vestiu-se e logo de seguida saiu de casa. Como encontra-la se não sabia o nome? Onde encontra-la se só a tinha conhecido um dia antes e o imenso pouco que sabia dela, não era suficiente para conhece-la? Como é que se vai encontrar alguém que não quer ser encontrada? A única coisa que ele sabia é que não podia procura-la, tinha de a encontrar da mesma maneira que a encontrou pela primeira vez: naturalmente.
A rua estava sossegada e as pessoas ainda tomavam os seus cafés nas esplanadas da rua. O jovem dos jornais descansava um pouco a sua voz de tanto falar em mortes e na crise, quando ele sabia que a única coisa que as pessoas não queriam ler era sobre esses temas.
Percorreu a rua, passando por umas três ou até quatro capelas, mais umas tantas lojas e o dobro dos cafés até encontrar uma praça. No centro, um parque infantil onde os pais deixavam as suas crianças brincar as suas primaveras. Mas nem todas eram crianças: Sentada num baloiço estava uma rapariga, que (mais uma vez) só o chão admirava o seu rosto. Afonso aproxima-se do parque infantil e de fora do recinto gritou à rapariga: "É só uma dica: O baloiço só funciona se deres lanço!"
A rapariga reagiu a voz conhecida, limpou o que pareciam lágrimas e sorriu na direcção da voz. Era ela, Clara, que lhe respondeu : " Se houvesse quem me empurra-se..."
Afonso avançou para o interior do parque e sentou-se ao lado dela, "Não precisas que ninguém te empurre" disse ele "Basta te impulsionares com os pés para a frente e para trás, até ganhares a força e o equilíbrio necessário para te pores em movimento". Demonstrando-lhe aquele movimento, ela começou a balançar. Começou a sorrir enquanto se divertia, mas Afonso muito sério fixou o seu olhar no nada o que lhe intrigou e levantando-se do baloiço pondo-se na frente dele perguntou-lhe "O que se passa?"

Ele respondeu-lhe, "Tu não precisas que ninguém te empurre. Apenas precisas de alguém ao teu lado, a força e a coragem, és tu que a tens."

Até ao fim do Fim - Ana Moura

quinta-feira, 10 de março de 2011

Conta-me uma história - |||


Andaram durante pouco mais de uma hora. Caminharam pelas ruas, pelas flores que as floristas estavam a vender logo pela manhã, pelos aromas que aquelas esplanadas traziam, umas a tabaco, outras ao café após almoço e em algumas ainda o almoço na mesa estava. Afonso não largava a mão dela como ela não largava o braço dele… Ao longe faziam confusão a algumas pessoas, mas eles não queriam saber, o mundo era deles, o pequeno mundo que se estava a criar. O prédio do Afonso era no centro da cidade, numa zona bastante calma, apenas com alguns vizinhos que já se lamentavam não ter mais gatos para alimentar e que apenas queriam contar histórias aos seus netos. Quando se abriu a porta da casa dele, ela tremeu pela segunda vez desde de que se viram pela primeira vez, automaticamente, Afonso pergunta-lhe baixinho, como se não quisesse acordar ninguém, “Estas bem?” ao que ela só acenou que sim. Encaminhou-a para a sala e disse-lhe para esperar ali pois ele ia preparar a casa de banho para ela para ela tomar um duche e que já voltava. Tranquilamente ele aproximou-se dela e beijou-a na testa ao que ela suspirou e depois de sorrir deixou-a na sala.

A sala dele era bastante simples: alguns livros nas estantes, onde se lia livros de poesias, de prosas, de arte e um de desporto. Na prateleira debaixo tinha alguns cd’s, vinis e até uns dvd’s. No centro da sala, uma mesa de luz deixava mostrar o mais recente desenho dele: Uma mulher abraçada a um lobo. Ela de olhos fechados e o lobo sério olhava para quem estava a ver a pintura, fazendo com que ela se sentisse com receio de olhar para a mulher. Quando se encostou ao sofá, sentiu algo a mexer-se debaixo do cobertor que lá estava. Assustou-se e com o susto saltou um gato debaixo do cobertor deixando-a colada ao chão. Com o grito dela, Afonso veio a correr e vendo o que se estava a passar, começou a rir-se como um perdido. Ela corada disse lhe em tom de ordem “Onde esta a piada?!” Contendo-se para não rir, embora um sorriso tivesse surgido, disse-lhe “É apenas o meu gato” dizendo isto dirigiu-se ao gato, pegando nele acrescentou, “É a minha única companhia nesta casa”. É aqui que ela olha para o Afonso pela primeira vez com olhos de admiração e se apercebe o quanto lindo era a flor da idade daquele rapaz que ali estava. Voltou a olhar em volta e apercebeu-se de uma guitarra e até de um violino, e vendo aquilo, perguntou “Sabes tocar violino?”. A reacção dele foi de espanto, quase como ele já nem se lembra-se que tinha lá aquele instrumento. Respondeu em tom de tristeza ou até de lembrança “Isso tinha significado a um tempo atrás… agora já não faz sentido” e logo depois olhou para ela “Bem, tens a casa de banho toda para ti, esta a tua vontade”.

Deitada na banheira, enquanto o incenso lhe percorria os pulmões, ela fechou os olhos e sonhou. Sonhou com os dias de criança em que brincava com a sua irmã as escondidas e que ela era sempre apanhada “Apanhei-te Clara! Agora és tu!”. Clara, nome escolhido pela mãe e concordado pela madrinha. A mãe como grande devota a Francisco de Assis, quis dar o nome a uma das filhas como era o nome da companheira deste santo e do mesmo modo a madrinha se lembrava da parábola do lobo. Durante o sonho, ela esta no quarto e começa a ouvir um violino. A melodia era tão linda que fez com que a Lua sorri-se no meio da noite e que as árvores dançassem, e de repente, num sobressalto, ela acorda numa banheira, onde o incenso já não tinha mais por onde arder e apercebeu-se que o violino não era um sonho, mas sim o Afonso a tocar. Saiu da casa de banho assim como o mundo a viu nascer e ali estava ele: no meio da sala de costas voltadas para ela com o violino nas mãos. Nas suas costas estava tatuada uma pena envolta em chamas e o cabelo dele estava solto. Devagar, ela aproximou-se dele, encostou-se a ele, ao que ele responde, “Estas bem? Precisas de alguma coisa?” Ao que ela fechando os olhos lhe disse “Sim, preciso de ti” No escuro, beijaram-se e mesmo ali no sofá se deitaram até o nascer da manhã seguinte.

sábado, 5 de março de 2011

Conta-me uma história - ||

Pouco depois do comboio em direcção ao Porto partir, já eles estavam num simples café da zona da estação. Ela ainda trazia consigo o bilhete na mão e parecendo que não, já não era apenas o chão a admirar a sua beleza: o seu rosto era lindo, tal como os olhos que enchiam de inveja as lagoas mais lindas alguma vez descobertas pelo Homem. Afonso sentou-se, depois de pedir o pequeno almoço, em frente dela e continuando a sorrir olhou-lhe nos olhos e tentou criar um momento lúdico "Então, achavas que ias passar despercebida no comboio com essa beleza toda?" sorrindo. A rapariga olhou intensamente para ele, e subtilmente sorriu e disse "Parece que me enganei, mas sim ainda tentei."
Ele estava curioso em saber algo sobre ela, mas não sabia o que perguntar, no entanto, no meio do silêncio ela perguntou-lhe "Diz-me, porque fizeste isto? Porque pagas-te o bilhete a uma sem-abrigo, que não conheces de lado algum?" Era a pergunta que ele mais temia, pois ele não sabia o porque ao certo daquela atitude dele... No entanto ele disse "Eu já vivi com sem-abrigos, já dormi na rua muitas vezes, convivo com ocupas e de vez enquanto convidos a jantar ou a almoçar a minha casa. Simplesmente, sei o que é, já vivi isso." Lá fora eram capazes de estar a bater, neste momento, os 20ºC mas mesmo assim, se criou, um frio de rachar naquele momento. A rapariga baixou a cabeça em jeito de tristeza e respondeu muito baixo "Eu não sou uma sem-abrigo mesmo... Fugi de casa à coisa de uma semana e já não sei o que fazer... Só me lembrei ontem a noite, que a minha madrinha vivia em Braga e ando a tentar contacta-la... Preciso de um abrigo..." Dito isto, ela começa a chorar e só agora é que o Afonso entendeu o porque dos olhos dela serem tão azuis, eram as lágrimas pressas que não conseguiram jorrar. Comovido, ele decide em ajuda-la "Diz-me, onde vive ela, onde trabalha, como contacta-la, eu ajudo-te a encontra-la". A cabeça dela levantou-se e ela olhou para o tecto como se estivesse a ver uma constelação e com um subtil sorriso diz, "eu não faço a mais menor ideia, só sei que trabalha num hospital em Braga." De novo, as lágrimas jorram dos seus olhos, e ele comenta "Diz-me, o que aconteceu para teres fugido de casa, eu posso ajudar?" No seu rosto sentia-se o medo, no seu corpo o tremer e nos seus lábios, a vergonha... No entanto, algo deu-lhe confiança para dizer o seu segredo "Eu e a minha irmã fomos violadas pelo nosso padrasto. Decidimos fugir as duas ao mesmo tempo, eu fui por um caminho, ela foi por outro e decidimos-nos encontrarmos em Braga junto a nossa madrinha." Durante horas ela contou-lhe as noites de violência, em que ele batia a mãe delas quase a matando, uma vez porque não tinha temperado a sopa do jantar dele; contou-lhe as manhãs de bebedeira em que ele vinha para casa mais morto que vivo e as fechava a cada uma num quarto, violando uma e depois a outra durante o dia dentro... muitas vezes filmando as cenas e as mostrando a outra... dias cinzentos pairavam naquela casa e nas almas destas duas gémeas a noite era cruel e intensa...

Após de ouvir aquilo tudo, Afonso levantou-se, pagou o pequeno-almoço, o almoço e o lanche e esticou-lhe a mão dizendo "Passa esta noite em minha casa, estarás segura-la e amanhã procuramos a tua madrinha"

Juntos, desta vez de mãos dadas saíram do café em direcção a casa dele...

Texto escrito para o blog Fábrica de Letras

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Conta-me uma história

Fazia aquela viagem todos os dias, sempre a mesma hora e por vezes sempre com as mesmas pessoas. Afonso, tinha sair do Porto para viajar até Braga para puder ir trabalhar e grande parte das vezes viajava de olhos fechados, numa tentativa de descansar. Nesse dia, mesmo que quisesse, não ia conseguir dormir no comboio. Num dos apeadeiros entrou uma mulher que apenas a sua presença inquietou muita gente naquela carruagem: com uns sapatos, onde um deles não tinha atacadores, as meias rasgadas na zona do joelho mas mal se via devido ao vestido que trazia, bem, vestido esse que teria visto melhores dias pois vinha bastante desgastado. Por cima do vestido, era apenas uma blusa, mas essa sim, linda toda ela trabalhada em pormenores nas mangas, golas e até os botões. O lenço que trazia, não lhe aquecia muito, tal como o gorro e as luvas. De cabeça tombada a olhar para o chão ela mal que entra encosta-se no canto da carruagem e lá fica de pé. Ele não deixa de conseguir de olhar para ela e reparar em todos estes pormenores, tal como não consegue deixar de reparar outros passageiros e nas atitudes tomadas com a entrada da sem abrigo: o senhor sentado no banco do lado direito pegou na mal que tinha no chão e num gesto de desculpa pegou nela, colocou ao lado dele e de lá tirou o jornal, fingindo que lia e deixando esse lugar ocupado com a sua bagagem; a mulher em frente dele, pegou no casaco e cobriu o lugar também; uma jovem, provavelmente da mesma idade da saem abrigo, colocou os auriculares e os óculos de sol e fingiu não a ter visto a entrar e o namorado, bem, esse fechou os olhos e fingiu um cansaço de modo a deitar se e ocupando dois lugares. Afonso não conseguiu de deixar de reparar nesses pequenos movimentos e começou a sentir-se péssimo. Mal que arrancou o comboio, o revisor surge pelas costas de Afonso e vai picar o cartão de uma senhora. É aqui que ele se lembra de tomar atitude: Levantou-se e dirigiu-se para junto da sem abrigo. Ela sentiu a sua presença e começou a tremer como se estivesse a prever algum discurso, mas ele apenas lhe disse: "quer se sentar ao meu lado?" Naquele momento, a rapariga deixou de respirar e olhou para ele: Afonso sorria com uma ar tão feliz e simpático como sempre era costume dele e ela, com os lindos olhos azuis quase em lágrima responde "muito obrigado senhor". Muito lentamente ela caminhou, sempre de cabeça baixa até ao lugar que Afonso lhe indicara, sentou-se e logo depois foi ele ao lado dela. Enchendo os pulmões com coragem ele pergunta ao ouvido dela em jeito de segredo "Não fales, abana só com a cabeça. Tens dinheiro para a viagem?", e ela dá uma resposta negativa, algo que Afonso já estaria a contar. O revisor chega ao pé deles e reparando nela, diz "Bom dia Senhor, o seu bilhete?" "Aqui esta... e já agora queria comprar outro para a minha amiga". Algo inesperado acontece, todas as pessoas olham para esta cena inclusive a sem abrigo ao que o revisor responde "Jovem, o preço no comboio é o dobro que nas estações..." " sim eu sei, não me importo". O bilhete é tirado e a rapariga guardou-o junto ao peito durante mais de meia hora e chorava, Afonso não tinha coragem de lhe perguntar se estaria bem ou não. O comboio chegou a Braga onde ela é a última a sair do comboio, e no momento em que sai do comboio, ainda de cabeça baixa, ouve a voz do Afonso "Não te esqueças de levantar a cabeça. És linda demais para ser só o chão a ver o teu rosto." Ela vira as costas e lã estava ele a sorrir para ela. Em lágrimas ela corre junto dele e abraça-o dizendo "obrigado pelo que fez por mim. O meu nome é Joana e tenho de lhe agradecer por isto tudo." "Não precisas de agradecer, apenas te quero pedir um favor" Ela sorriu pela primeira vez em toda a viagem "peça tudo, eu farei isso" Afonso olhou para ela, tornou-se muito serio e de repente disse lhe nos olhos com apenas um sorriso "vem tomar o pequeno-almoço comigo e conta-me a tua historia". Juntos no café mais próximo da estação falaram durante horas...

Texto escrito para o blog Fábrica de Letras

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Orquestra

Aquele bairro, sempre foi monótono, calmo e acima de tudo sincero em cheiros: a vizinha do terceiro andar tinha sempre aquelas rosas que faziam lembrar a vinda das andorinhas na primavera, ou então o vizinho do primeiro, que ao fim de semana porque lá tinha os pais a visitá-lo fazia sempre umas sardinhadas que lembrava os santos populares. A padaria da frente sempre logo de manhã a dar-nos os que de melhor a terra nos podia dar: o maravilhoso cheiro a pão quente, que só de o cheirar dava vontade de ver a manteiga a derreter e de sentir ele a estalar mal que o tentasse abrir. O carrinho da peixeira que com o seu sorriso enchia a barriga dos gatos e com o seu diz que não disse enchia os mexericos das freguesas, há muito pouco falavam elas do peixe fresco dessa manhã, dava a sensação que o pescador vinha com o barco atrás da velhota. Simplesmente sentia-se o cheiro de todo o bairro na minha janela, e eu só partilhava o cheiro do tabaco já vencido pela chama. Porém, esta noite tive um sonho estranho, e acordei a meio dele para escrever algo, mas pouco mais me saia da cabeça os cheiros daquele bairro… eu não entendia o que se passava, até que pela frustração peguei na minha guitarra, acompanhante de tantas viagens, e para a varanda fui dar um suave toque de guitarra… Foi aí que eu percebi o que me perturbava o sono… O som da minha guitarra acompanhava o contra-baixo do padeiro que porque esperava que o pão estivesse a cozer, tirou uns minutos para treinar, nós os dois, acompanhamos a flauta do primeiro que não praticava durante o dia pois chateava o vizinho do quinto que é segurança nocturno. O piano da vizinha das rosas estava simplesmente lindo a acompanhar o violino do marido da peixeira, que esta noite estava com as castanhas na brasa. No meio da noite tínhamos a mais bela sinfonia.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

"Uma Longa Viagem..."

Por entre a escuridão surge o primeiro raio que o Sol ofereceria naquele dia. O orvalho ainda se sentia e os passaros já cantavam ainda antes desse novo amanhecer. Uma janela aberta fazia ver o simples quarto de uma jovem adolescente que ainda dormia sobre os lençóis. A primeira brisa da manhã faz lhe arrepiar e a jovem Isabel abre imediatamente os olhos, ela sabia, ele já não estava deitado ao lado dela. Ela vira se para o outro lado da cama com esperanças que ele ainda lá estivesse, que ela se tenha voltado a enganar, mas desta vez, em vez do seu homem, ela tinha uma carta. A sua curiosidade e o medo fizeram que muito calmamente ela abrisse o tão sensivel envelope. Dentro um pequeno papel tinha uma mensagem para ela:

"Não esperes por mim, poderei não voltar... Adeus Isabel."


Ela não queria acreditar no que acabara de ler. Não foi capaz de voltar a ler e ainda antes da segunda brisa da manhã, ela sai do quarto e procura-o, necessita de o voltar a ver, necessita do último abraço.
Ela sabia onde ele se encontraria, no cais, local onde todos os marinheiros arriscavam a sua vida partindo para esse mar que nem sempre os devolvia as suas mulheres, aos seus filhos e familia. Ela procurou assim que chegou ao cais por ele, procurou e procurou e quase desesperou até que alguém lhe disse "Isabel, ele ainda não partiu, esta no cais-norte!" ao que ela nem pensou em agradecer só queria seguir, encontra-lo. Ao longe a nau já era suficientemente grande e assustadora, mas ao perto, mais assustava, porque ela não se incomodava com o choro das crianças, a imploração das mães e a coragem dos homens que viam os seus herdeiros partir e por causa do seu orgulho machista, nem uma lágrima foi visivel nos seus rostos. No meio deles esta ele, Orlando, que sem esperança que ela voltasse entra para o barco. Ela vê-o e corre, mas já seria tarde demais, aquela nau parte e ela não realizou seu desejo de o abraçar. A única coisa que lhe fica na memoria desse dia é uma nau no horizonte a partir.
Nessa noite, em sonhos ela viaja numa nau, procura por quem ela não conseguiu encontrar nesse dia, mas a sua nau entra numa tempestade, o mar não a queria encontrar o homem que sempre a amou. Ela luta, deseja-o demasiado para o deixar partir, mas as suas forças não lhe permitem continuar e ela cai no convés sem esperanças. Quando todas as suas forças a abandonam, uma luz, tão brilhante como naquela manhã onde ela tudo perdeu, mas ganhou aquela coragem de o querer abraçar. Com essa mesma força ela ergue-se e quer enfrentar a tempestade. Ela consegue atravessa-la e de novo o mar se acalma, no entanto ela da por si, num intenso mar, sem terra a vista, sem nenhum sinal e sem vida onde só existia ela e a sua nau. Ela mesmo assim decide, a longa viagem que terra de fazer para o encontrar e promete a si mesmo que voltaria a acordar quando a sua viagem terminasse.

Texto escrito para o blog Fábrica das Letras para o mês de Agosto

sábado, 22 de maio de 2010

Um episódio meu


Contava ja a terceira vez que o cu cu cantava depois do meio dia, quando decidi sair do meu espaço direcção ao trabalho.
Aquele caminho, que tantas vez fiz e sempre sozinho, porem, hoje ao acordar sentia que algo seria diferente naquele caminho... Seria o sol, ou apenas o vento? Sera que hoje o senhor que gentilmente arruma os carros naquela rua nao me iria cravar um cigarro, ou sera que era desta que um buraco negro se iria abrir por baixo dos meus pes? Não faço ideia o que seria, mas defacto algo novo iria acontecer.

Passo finalmente aquela curva e, bem sem saber porque, tento num espécie de momento de sorte, chamar pela gata desaparecida Lilo, poderia eu ate ter mesmo a sorte do meu lado e ela aparecer do nada... "Lilo, Lilo... Lilo onde andas?" Bem tentei, mas como de costume nada surguiu... Ainda faltava pelo menos um quarto de hora para a hora bater quatro quando reparo que todos os dias passei em frente a um infantario e nunca me tinha apercebido.
Chamemos lhe saudades da minha irma, ou do instinto protector da minha mae, na verdade tive de olhar para as crianças, e uma delas reparou em mim e veio a meu encontro... A imagem é bastante simples, eu uma grade e uma criança com pouco mais de 5 primaveras contadas. Ela consegue esboçar um sorriso ao mesmo tempo que me mostra o chapeu, seria novo, ou teria ela o perdido e reencontrado e estaria feliz por o ter encontrado? Sei la, so sei que chegara o momento que eu sentia em mim... Ha um segundo, em que a consciência para. Um velho aproxima-se com a velocidade que as pernas o permitem e eu e a criança olha mos para ele... Logo apos ele olhou para a criança e tudo isto na minha cabeça num espaço de um segundo:

Acriança pergunta ao velho "Conta me o passado" ao que o velho reponde "Conta me o futuro" e por mais estranho pareça os dois olham para mim ao mesmo tempo ao que eu repondo em voz em vez de pensamento

"So poderei contar o presente, e nao queiram saber como ele esta"

terça-feira, 4 de maio de 2010

A primeira e última carta

Sentava-se sempre na mesma mesa, a mesma hora naquele velho café. O pedido era variado, ou um café, ou um copo de água, ou nos dias em que ele parecia mais bem disposto, uma cerveja ou um martini.
Acompanhava-lhe sempre aquela guitarra que nunca saiu do saco, mas pelo estado do mesmo, deveria ser velha com muitas cantigas choradas. Sempre com um bloco e uma caneta, ele escrevia ou desenhava, assim passava ele horas naquela mesa. Eu apreciava-o, mas sinto que ele nunca se apercebeu, porém assisti um dia a uma situação que me deixou curioso. Uma rapariga, da mesma idade, sentou-se ao lado dele e observou-o atentamente. Ele murmurou algo, ela meteu a mão a cara e depois de chorar, escreveu algo num papel dela. Ele friamente não olhou para ela e não respondeu as lágrimas. Ela levantou-se e saiu dali a correr. Demorou uns segundos ate ele ter coragem em ler o papel dela.
Eu não consegui tirar os olhos daquele episódio surreal. É então que acontece o que nunca imaginaria ver a acontecer: Ele começa a chorar, e logo após de uns minutos, tirou a guitarra e tocou a mais bela musica, de amor, de tristeza, de lágrimas jorradas.
Tudo se petrificou a olhar aquele episódio, algo que ninguém estava a espera de ver e ouvir. Depois de um instante, sai do café e deixa a carta ao abandono.
Eu esperei, mas ele não voltou e a curiosidade era muita e então li a carta deixada.

Dizia:

" Vivi nas sombras durante uma eternidade, onde não via a luz, onde não tinha sonhos, onde se eu dormisse, pois era impossível, eu tinha pesadelos de momentos que nunca vivi.
Passei pelo inferno e la me instalei, procurei encontrar caminhos, no entanto parava sempre no mesmo canto. É então que no meio da turbulência surgiu o teu olhar, o teu rosto, que tornou dia o que pensava a acreditava ser noite. O teu abraço, encheu de calor o corpo que há muito ja era frio, onde há muito já era Inverno. Sentir o teu corpo fez com que eu te deseja-se cada vez mais, e sentir-me desejada era um vicio. Possuis te me naquele local, naquele fim de tudo, onde fui feliz só dessa vez, no entanto procurei-te na noite seguinte, no dia seguinte, na semana seguinte e nunca mais, nunca mais surgis te, e as trevas tomavam conta do caminho que crias te.
No desespero, corri, fugi daquele lugar, para ti e quando consegui sair, estava num local vazio, branco, sem nada, sem som, sem luz e a sombra que eu tinha e que me sempre acompanhou, desapareceu e ai percebi que me abandonas te.
Corri, sem destino e vi-te, sentado no mesmo sitio de sempre e perguntei-te "O que sou para ti?" e tu respondes-te:"

E o texto aqui tinha outra cor, notou-se que foi escrito no momento, a resposta dele a pergunta que ela fez a ele naquela tarde.

A resposta foi:

"Eu não te conheço, desaparece da minha vista e não voltes."

terça-feira, 2 de março de 2010

Carta para a minha filha

Já não se viam há bastante tempo, mas ele saudades não tinha, antes pelo contrário, sentiu um desprezo enorme por ela, pelo facto de ela o ter deixado com tudo nas mãos: casa, amigos, sonhos e desejos. Tudo tinha ido por água abaixo, no momento em que ela decidiu terminar a relação. No entanto, ele cresceu e aceitou o facto de ela ter errado, e então, decidiu encontrar-se com ela porque ela apenas lhe disse: "Tenho algo te contar algo e pedir-te um favor..."

Naquela bela praia, ela esperava-o, como uma pobre que espera o regresso do marido que foi a conquista dos mares, e no meio do nada, surge ele.

Um beijo na face, com um abraço, foi o suficiente para ele entender que algo não estava certo.

Num acto de arrogância e medo, procurou por algum sinal do namorado dela, não fosse ela ter ficado a mesma pessoa, mas ela respondeu: "Estou só, não está cá ninguém." Sentaram-se no areal e ela chorou, e ele não percebeu a origem dessas lágrimas, é então que ela responde a pergunta mental dele:

"Estive grávida e tive de abortar." Ele ficou pálido e frio, sem saber em que pensar ou no que dizer, mas ela disse logo de seguida:"Por favor, escreve um texto em memória da minha criança."

Ele olhou-lhe nos olhos, olhou o oceano, mas que lindo dia e que calmo oceano, e depois fechou os olhos e beijou-a. Logo após, sem uma palavra, nem sim nem não ele foi se embora. Foram noites de tortura, de ódio e de choro, "aquela criança podia ser minha! Se fosse comigo não abortava!" Chegou mesmo a pensar: " Se ela me tivesse contado, eu tinha assumido a criança como minha!"

Ao fim de várias noites em branco, decidiu sentar-se num parque onde estava só, quando viu surgir do nada, uma criança. Uma bela menina que brincava sozinha e puxando pela coragem falou-lhe e perguntou:" Olá linda. Como te chamas?" Ela respondeu: "Lara, Lara Isabel" "E porque brincas sozinha?" Ao que ela respondeu: "Não tenho pais nem irmãos. Mas sou feliz." E sorriu. Ele sentido, perguntou se podia brincar com ela ao que ela respondeu com um sorriso ainda maior "Sim!"

Nessa noite ele escreveu a seguinte carta:

"Antes de mais, parabéns por teres existido. Criança que nasce é criança que sonha, e com o sonho somos imortais. Bastou-te sonhar uma vez e jamais morrerás. Infelizmente deixas-te nos cedo, e infelizmente não te vimos sorrir, mas sabemos que foste feliz.

Hoje vi uma criança que de certeza serias mais bela que ela minha filha: bela, educada e sorridente. Certamente foste mais inteligente que nós todos juntos, pois soubeste respirar nas trevas que envolviam mas isso não te impediu de existires.

Escrevo-te esta carta, para que saibas que não foste esquecida, para que saibas que foste amada por mim, pela tua mãe, para que saibas que nunca morrerás.

Adoramos-te filha"

Enviou esta carta para a sua ex-namorada ao que não obteve resposta até ao dia de hoje, mas ele, assumiu a paternidade da pequena Lara Isabel e hoje, são uma família feliz.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Nevoeiro de Natal

"nunca mais o Natal soube a mesma coisa. Perdeu o paladar nesse ano... Apenas a foto dela era importante estar comigo... Foi o primeiro Natal sem ela... O primeiro de muitos."

O jantar na mesa, nunca a mesa estivera tão rica como naquela noite, uma noite tal igual a tantas, mas naquela noite havia algo diferente, algo que apenas se repete uma vez por ano e é de dia.
A familia juntou-se toda outra vez, todos aquecidos pela lareira, chamas vivas que aqueceram o corpo e a alma de todos... Ou será melhor dizer, quase todos. Sebastião não era amante da época natalícia, desprezava-a de uma maneira fria, mais fria que a noite que se fazia a porta de casa. Não tinha um amor a época do amor e naquela noite, apenas foi para respeito da avó que se encontrava acamada. O pensamento dele era simples: Já perdi uma avó, não quero perder a outra também. E enquanto todos se reuniam na sala, junto da lareira, da televisão e até junto do cão, ele estava no quarto com a avó, que lhe contava outra vez a história do carvão que se oferecia naquelas alturas. "Era a melhor prenda, sempre dava para aquecer a noite" dizia ela sempre a sorrir. Na verdade ela só sorria na presença dele, pois todos diziam o mesmo "Está sempre triste", "Nunca quer nada e para comer é preciso obriga-la".
Sebastião era uma espécie de esperança para a avó dele. Ela olhava para ele não como um neto, ou afilhado, mas sim como um anjo ou outra coisa parecida enviada por esse ser divino superior a que ela chamava Deus, para lhe alegrar aquela noite que devia de ser de alegria. Mas aquela noite prometia ser diferente, havia algo novo nela, algo que até a altura nunca tinha acontecido. O jovem neto, no fim da bela história sorriu e disse :"Avó, esta na hora de irmos. Temos de ir". A avó não entendera a perguntou, "Ir onde filho? É noite de Natal, é aqui que devemos estar". Sebastião respondeu-lhe: "Não é aqui, alguém nos espera. Vamos". Levantando-se, pegou na sua avó, cobriu-a e levou-a na sua cadeira de rodas. Abriu a porta de serviço e saíram.
Era meia-noite quando vieram chama-los ao quarto mas ninguem estava lá. Nem Sebastião nem avó, nem ninguém. Apenas uma carta que tinha uma pena em cima. A carta tinha sido escrita com essa mesma pena e dizia:

Querida Familia

A avó está comigo, partimos esta noite para o nevoeiro que se ergueu. Quando for altura oportuna regressaremos.
Não vos preocupeis, esta era a prenda de Natal que há muito prometi a avó, voltar a ver o avô.
Obrigado a todos.

Sebastião




Quando leram a carta não quiseram acreditar. É então que entra o pai de Sebastião na sala com uma noticia triste:
-O Sebastião morreu a uma hora no hospital de cancro no estômago.
-Não é possível! Então quem jantou cá?

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Encontro o desejo

"ela sentia necessidade de pelo menos o abraçar sempre que o via.
podia ela estar comprometida ou não, sempre na sua presença
ela tinha de tocar aquele corpo que fora dela, que ela já tinha possuído no
passado."

Ainda ela era uma jovem miúda, apenas sonhando ainda com amor verdadeiro, com o dito casamento normal onde ela seria a última a chegar, com a dita família normal que já não se viam os primos da França há muito tempo, que continuam a achar que o avozinho não devia casar pela terceira vez, visto que a nova mulher tinha idade da prima mais velha dela. Mas dentro do ninho, era normal: filha ama mãe, mãe ama pai, pai ama mãe e ama filha.
Naquele noite, onde nunca se vira tantas estrelas como naquela linda noite, ela conheceu-o. O homem que lhe iria pertencer, o homem com que ela sonhara todas aquelas noites, todas aquelas noites de loucura e paixão. Só faltava que ele a deseja-se tanto como ela a ele. Ele aceitou bem os lindos olhos verdes e juntos dançaram aquela linda melodia que não se pode dançar sozinho... Só não chovia.
Ela abraçou-o e sentiu logo o calor do desejo dele a entrar no seu virgem corpo. Com este sentimento, ela decidiu, hoje seria a noite em que se entregaria pela primeira vez a loucura.
Procurava ela, há mesa, onde todos os amigos jantavam, todos sorriam mas ela não o via. Quando o viu, sorriu de felicidade e com esperança que ele olha-se ficou a vê-lo. De repente ele olha para ela, mas ela é surpreendida por um olhar gelado, frio de vida... Não havia sonhos no olhar, não havia estrelas, não havia alma. Será que tinha acabado? Será que ela desistirá? Enquanto ela se questiona, ele levanta-se da mesa e segundos depois ela faz o mesmo. Há quem lhe pergunte onde ia ao que ela simplesmente responde "vou apanhar um pouco de ar", como se desse mesmo para apanhar essa coisa que nos da vida... Na noite, ela o viu, banhado em lágrimas e ela sem saber o que fazer, foi correndo ao encontro dele e o abraçou, começando também a chorar. O abraço dele foi tão forte que ela não resistiu e teve de o beijar por que senão
o desejo dela o faria por ela. Ela passou a mão pelo cabelo enquanto o beijava no pescoço ao que ele deixou um leve suspiro beijando a no pescoço e sem ela dar conta, ele deitou a junto aquele banco, ali mesmo no relvado, apenas a noite seria testemunha e cúmplice de tal desejo. Só não chovia.
Ele sentiu os mamilos dela com a mão enquanto a beijava, ao que ela correspondeu sentindo o pénis com a mão dela... Ainda vestidos já loucos se encontravam. No instante seguinte ela despiu-lhe a camisola deixando o pobre rapaz ao frio daquela noite, mas ele estava quente de desejo e loucura e deixará ela no mesmo estado, nua de roupa e de sentimentos. Já sentindo os lábios grossos molhados com os dedos, ele penetrou trazendo lhe a ela o sentimento de lágrimas e felicidade.
Só não chovia.
Mas de repente ele parou, pediu para ela se vestir. Fora as primeiras palavras que eles trocaram desde do momento em que se viram pela primeira vez. Ela não entendeu, mas simplesmente obedeceu e vestiu se. Houve um momento em que ela se distraiu... apenas um momento... e quando voltou a olhar, ele já tinha desaparecido deixando a praticamente mais virgem do que ela já estava antes. Ela procurou-o, mas não sabia o nome dele para o chamar, naquela noite só não chovia, mas ela encharcada em lágrimas já estava.

Cinco primaveras passaram e ela sempre nunca desistiu de o procurar. Entrava nas cidades, perguntara se alguém o tinha visto, mas já se habituara a que lhe dissessem que não sabiam a quem se referia. Tinha acabado de chegar a uma cidade, cidade igual a tantas outras por onde já tinha passado, mas esta ia se tornar diferente. Voltara a encontrar o homem que desapareceu naquela linda noite. Lá estava ele sentado num banco: idêntico ao que tinham possuído a cinco anos atrás, e de olhos postos na mesma cúmplice.
Ela sentou-se a beira dele e sentiu de imediato tudo de novo, uma vontade de o abraçar. Ele rompeu o silencio dizendo "Eu reconheço-te. Desculpa, mas naquela noite eu era comprometido."
Ela não hesitou e desejou-o tão loucamente como na primeira vez.
Desta vez fizeram amor;
Desta vez ela sentirá a loucura do primeiro amor;
Desta vez, chovia.

08 . 09 . 2009